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    Templates da Lua

    03/07/2009

    Reflexões Universitárias

    Eu comentei aqui que não estava satisfeita com o curso de letras da UFRJ. Pois então, larguei e agora estou fazendo História, também na UFRJ. Era pra eu já ter escrito esse post há meses, a fim de dar uma satisfação aos meus três leitores (Tá,como se eu tivesse algum leitor...) mas a faculdade e outros assuntos me ocuparam demais.Então.Vim dizer que a troca foi excelente,Letras não era mesmo pra mim,estou bem mais feliz fazendo História.Não só por causa das matérias mas pelo estímulo intelectual que a faculdade me dá.Sei que não é bonito falar isso,mas na faculdade de Letras eu não tinha que pensar muito.Não só por conta das matérias em si (quem precisa refletir alguma coisa pra aprender Grego Arcaico,Latim ou Francês?)mas também por conta dos professores e da metodologia de ensino.Os professores aliás,eram um problema,tínhamos dois substitutos que não tinham qualificação suficiente,uma professora que faltava aula sim,outra também e que quando vinha pra aula ficava tomando açaí e pedindo pros alunos explicarem o texto e outra que era tão nariz em pé que desestimulava qualquer debate (Afinal ela nunca dizia que o aluno estava certo,quando ela não podia dizer que o aluno estava errado ela dizia “Ainda não é por aí”).Fora isso tudo, nós não discutíamos muito.Na aula de português por exemplo,a professora nos mandou ler um livro chamado “Preconceito Lingüístico”,e o trabalho e a prova foram baseados nele,como se as teorias do livro fossem verdade absoluta.Não nos foi passado um único texto que contestasse as idéias do autor daquele livro.Na faculdade de História eu não sinto isso.Nos mostram a evolução da teoria e correntes de pensamento distintas para que façamos uma reflexão.Até agora não me senti pressionada em nenhum momento a concordar com um autor,pelo contrário,os professores estimularam sempre a análise crítica.

    Quantos aos alunos, senti diferença também. Os de História me parecem ser mais questionadores. Embora, é claro, o número de gente disposta a mudar de opinião seja bem baixo. Eu sinto que as pessoas já chegam com suas convicções políticas formadas e não se dispõem a abrir a mente. Nem que seja para no final elas provarem para si mesmas que estavam certas.

    Ainda sobre os alunos, como em todo lugar, tem sempre os vagabundos. Aqueles que não ajudam em nada no trabalho, e nem aparecem no dia da apresentação e mesmo assim querem que você coloque o nome deles. Gente que só vai pra faculdade quando tem chopada marcada. Aí chega o final do semestre e ficam choramingando pro professor abonar as faltas ou aumentar a nota. Usam mil desculpas, chegam a matar cinco avós por mês. Eu fico impressionada. Será que dói tanto assim ir à aula?

    Tem gente que mora em outros municípios e tá sempre ali. Eu acho que, se não quer fazer faculdade, não faz. Você não vai ser melhor nem pior que ninguém por causa disso. Não tá afim?Sai e dá a vaga pra outro. Como eu fiz. Acho que dá muito trabalho entrar na faculdade pra você não fazer nada lá dentro. Pra mim não faz sentido se matar de estudar no pré-vestibular (ou sozinho mesmo) pra quando chegar à faculdade não fazer nada. Por mais que eu faltasse, nunca deixei de entregar trabalho e fazer as provas, exceto quando o cachorro me mordeu.

    Quando eu estava no pré-vestibular (porque não me deixaram fazer a transferência interna e eu tive que desistir da matrícula e fazer outro vestibular pra História), eu não faltava uma única vez, e fazia os trabalhos todos. Eu tinha consciência de onde eu queria chegar e sabia dar valor ao dinheiro dos meus pais. Infelizmente eu não posso dizer o mesmo dos meus colegas de turma, tinha exceções, claro, mas uma grande parte não estava nem aí pra hora do Brasil. Estavam lá simplesmente porque os pais obrigavam. Acho que o mesmo pode ser dito de alguns colegas meus na faculdade.

    Eu consigo perceber também, que tem gente que ainda não conseguiu entender (ou não quer aceitar) que não está mais no ensino médio.

    Gente que acha que o professor vai ficar indo atrás pra ver se você tá fazendo o trabalhinho.

    Gente que pede pra tirar cópia dos textos que vão cair na prova, na hora da prova.

    Gente que não trás os textos e quer fazer os trabalhos com textos de outras pessoas.

    Gente que fica dando risadinha e fazendo piadinhas enquanto o professor tá explicando a matéria.

    Enfim, essas coisas.

    Fora evidentemente o povo desonesto, que apesar das negativas do professor insistem em fazer a prova, digamos... Em dupla.

    Agora, partindo pra pontos mais materiais, a infra-estrutura do I.F.C.S. é bem melhor que a da faculdade de Letras lá no Fundão. No IFCS não tem buraco no teto do banheiro, por exemplo. E tem até elevador!(Tá quebrado, mas até essa semana pelo menos, estava funcionando...). Tirando o fato de que é infinitamente mais fácil chegar até o Largo do São Francisco, onde fica o IFCS do que ao Fundão. E o IFCS é mais seguro também. Quando leio nos jornais os casos de violência no Fundão dou graças a Deus por ter saído de lá.

    Para concluir, eu digo que sair da Letras lá no Fundão e vir fazer História no IFCS foi a melhor troca que eu fiz na minha vida!

    Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.Vulgo IFCS =]


    Escrito por princesa_mestica às 16h32
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    02/07/2009

    Deus Está Nas Religiões?

    Quem me conhece minimamente sabe que eu não sou lá muito fã de religiões. Hoje vocês vão descobrir o porquê (talvez não todo o porquê, mas grande parte dele). Acho que esse vai ser o post mais íntimo já publicado aqui no blog.

    Minha família nunca foi religiosa, nós nos declarávamos católicos simplesmente porque todo mundo dizia ser. Eu nunca tinha me importado muito com esses assuntos, até mais ou menos os 11 ou 12 anos,quando,por causa do bullying que praticavam contra mim na escola, eu senti necessidade de alguma espécie de apoio espiritual. Senti necessidade de pensar que alguém mais forte (no caso, Deus) estava vendo tudo de ruim que faziam contra mim e que estava se importando (ao contrário dos professores) e que - e essa é a parte mais importante - iria castigar quem me maltratava. Como as únicas referências de religiosidade que eu tinha vinham da mídia e das pessoas próximas que eram todas católicas (ou ao menos se diziam ser), eu passei a considerar o catolicismo como A religião, Não uma religião dentre as outras, mas como a religião certa. A correta, a que tinha a verdade. Então eu passei a rezar para Deus. Esse Deus terrível que o catolicismo desenha. O Deus que vigia e que pune. E era isso que eu pedia quando rezava pra ele. Pra que ele punisse quem estava me fazendo mal. Dentro dessa lógica de vigiar e punir eu comecei a pensar: Se Deus pode punir os outros, porque não pode me punir também?Aí começou a paranóia. Eu censurava até meus pensamentos, com medo de "Deus não gostar”. A sociedade em torno de mim me fazia eco. Era sempre "Deus não gosta disso”, "Jesus vai ficar triste com você" (Esse geralmente empregado por mães idiotas pra botar medo nas crianças. - adendo: minha mãe nunca fez isso.). Um belo dia eu comecei a pensar: “Peraí, será que Deus é tão desocupado assim que se importe tanto com quem diz palavrão ou com quem transa sem casar?”Cheguei a conclusão que não.Se Deus fosse realmente superior aos humanos,ele deveria se importar com coisas maiores,tipo gente morrendo em guerras e coisas assim.Então eu vi que o catolicismo estava errado e desisti dele.Mas aquele meu desejo inicial continuava,eu queria acreditar que alguém,no fim,faria justiça.Diga-se de passagem:Eu estava pouco me importando em repensar o conceito de justiça.Então eu procurei outra religião.Achei o islamismo,que crescia bastante na época (2004 mais ou menos).Ele tinha uma coisa que parecia faltar ao catolicismo e às outras religiões.Tinha um conjunto de regras pra viver a vida cotidiana,faça isso,não faça aquilo,a punição para ato tal é essa ou aquela e blá blá blá.E tocava num ponto importante.Ele parecia explicar o meu maior problema na época.o Bullying.Os garotos que me provocavam debochavam constantemente da minha aparência.O islamismo dizia que usar o véu impedia que os homens julgassem as mulheres pela aparência.Dizia que cobertas,eles só poderiam reparar na nossa inteligência.Eu caí nesse conto,acreditei que a culpa era realmente minha (como todas as mulheres são levadas a acreditar) e que se eu me escondesse debaixo de uma infinidade de panos pretos meus problemas acabariam (comecei também a censurar as mulheres que saiam com as unhas pintadas ou com as roupas decotadas,achava que se faltassem com respeito à elas,seria por causa disso e elas não poderiam reclamar).Afora isso,o islamismo parecia resolver um outro problema,ele estimulava a minha passividade.Ele continha meu desejo de rebelião.Nas páginas do Corão (que é muito bem escrito,por sinal) eu descobri que não precisava nem devia me preocupar com nada.Devia somente esperar um príncipe árabe chegar e ele resolveria todos os meus problemas,porque minha vida seria responsabilidade dele não minha.O islamismo propagandeava as delícias da passividade feminina,como bem diagnosticou Simone de Beauvoir n'O Segundo Sexo.Essas idéias foram muito sedutoras,era confortador que alguém dissesse que eu podia resolver a falta de respeito que me era dirigida por ser mulher simplesmente mudando de atitude,era tentador acreditar que eu não precisava nem devia brigar.mas,conforme eu ia avançando nas páginas do livro sagrado eu ia percebendo que essa "proteção" toda tinha seu preço.Se uma mulher e um homem cometessem algum "crime contra a honra",ele podia até ser perdoado,agora para ela só restava a morte.Foi isso e a ameaça constante dos pecadores irem pro inferno que me fez desistir.O meu Deus não poderia ser assim vingativo e sádico,nem advogar um padrão duplo.Então,parti para minha terceira e última investida (sim,eu demoro pra aprender as coisas).Com o feminismo já aflorado em mim,eu procurava uma religião não-sexista.Achei.A Wicca.Só pelo fato de cultuar divindades femininas ela ganhou muito pontos comigo.Mas a essa altura eu já estava contestando tudo.Ao perceber que a Wicca também tinha dogmas e regras de hierarquia eu desisti.Dessa vez não só dessa religião específica,mas de todas.E de Deus também.Eu ainda achava que Deus era indisvinculável das religiões.E bom,se as religiões mentiam ou pregavam coisas que eu achava erradas era sinal de que Deus não existia.Depois,o tempo foi passando e eu percebi que Deus não é responsável pelas besteiras que dizem em nome dele.E que grande parte das pessoas que dizem falar em nome de Deus estão interessadas não na paz dos seus semelhantes,mas na submissão destes.Pela minha experiência e observando as pessoas a minha volta eu percebo que as pessoas são levadas a aceitar as coisas sem reflexão.A contestação não é estimulada.Os dogmas das religiões cerceiam a vida ao invés de expandí-la, que é o que os fiéis querem.E na ânsia de fazerem a coisa "certa" e "agradarem a Deus" as pessoas tapam olhos e ouvidos a qualquer opinião contrária.E pior,tendem a ser intolerantes com quem discorda delas.Não por causa da fé,mas da religião.À medida em que você passa a ter um conjunto de regras de vida estabelecidas tende a hostilizar e encarar como errado tudo que não se enquadre naquela cartilha que te deram para seguir.E as vezes isso nem traz a tão almejada paz de espírito.Eu penso,que nós podemos conseguir paz através da fé (ou sem ela também,ateus também podem ter paz de espírito),a religião é completamente desnecessária,visto que ela só faz enquadrar as mentes e servir de mediadora entre o ser humano e o(s) deus(es),quando mediadores são plenamente dispensáveis.

    Para ilustrar meu raciocínio vou contar um caso que presenciei na faculdade.

    No meio da aula a professora comentou que a legalização do aborto era um índice de civilidade,que só países muito atrasados ainda criminalizavam a prática.Então,uma garota interrompeu a aula raivosamente,e não parou de falar,que era contra,que era crime mesmo,que as mulheres que abortam deveriam ser presas,que isso era pecado,etc.

    Como dá pra notar,ela baseou todo o raciocínio nos dogmas da igreja.E os defendeu furiosamente.Eu fico me perguntando se,caso ela tivesse somente fé e não religião,ela teria feito essa defesa tão raivosa da criminalização do aborto.Eu acho que não.Acho que se a mente dela não tivesse sido tão enquadrada pelo padres ela teria um pouquinho mais de empatia pelas mulheres que abortam,e ainda na remota possibilidade de que não tivesse,ela não expressaria suas idéias de modo tão agressivo e intolerante.

    Eu não estou dizendo aqui que todo mundo que tem religião seja igual a essa garota,e sim que é bem mais fácil que quem tenha religião seja parecido com ela do que quem não tem.Porque o propósito da religião é enquadrar.Não acredite nessa estória de “dar paz” ou ter “contato com Deus”.Deus não está nas religiões.


    Escrito por princesa_mestica às 17h17
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