Meu avô nasceu em Araraquara, São Paulo. Em 1937. Era pobre, mas queria ser médico. Todos lhe diziam que filho de pobre não virava médico. Ele virou. Dos bons, ficou rico graças à sua competência. Sempre foi muito inteligente. Ele casou-se jovem com a minha avó, por quem tinha adoração e teve dois filhos, minha mãe e meu tio. Quando eu tinha dois anos minha avó morreu de câncer. Meu avô entrou em depressão, quando a doença ainda não era moda. Mesmo nesse estado de tristeza sempre foi um ótimo pai, e principalmente avô. Eu o adorava. Acho que ele era a pessoa que eu mais amava no mundo. Minhas melhores lembranças de infância são ao lado dele.
Um dia apareceu uma mulher dizendo para nossa família que era namorada dele, não lembro direito como foi, eu era pequena. Lembro que eu não gostei nada da idéia, talvez tenha sido um pressentimento. O caso é que o resto da família gostou da idéia, acharam que uma namorada talvez levantasse o ânimo do meu avô. Nessa época ele já apresentava os primeiros sinais do Alzheimer. Conforme tudo ia avançando, o “namoro” e a doença, a gente foi percebendo que ela não valia nada. Ela estava interessada somente na aposentadoria do meu avô. Ela tanto fez que deu um jeito de levá-los (ele e a aposentadoria, evidentemente) para morar com ela. Numa favela em Bangu. Onde nem os funcionários do judiciário se atrevem a entrar. Ela conseguiu isso graças ao apoio das irmãs do meu avô, as quais eu nunca mais, enquanto eu viver chamarei de tias. Elas não queriam a responsabilidade de cuidar de um irmão doente. Isso por si só já seria reprovável, mas elas poderiam tê-lo deixado sob os cuidados dos filhos dele, que sempre o amaram e estariam dispostos a fazer tudo para que ele ficasse bem. Não sei por que ficaram do lado da víbora. Não me lembro de todos os detalhes podres da história (Até por que, ninguém os contaria a uma criança).
Entramos na justiça com o pedido de guarda. A justiça negou, com base nos depoimentos das irmãs do meu avô a favor da seqüestradora. O interessante é que, enquanto eu ainda freqüentava a casa delas, toda vez que a cretina aparecia elas me mandavam me esconder no banheiro junto com meu primo, senão “a bruxa poderia nos deixar pequenininhos com um feitiço”. Depois disso, entramos na justiça para termos direito a visitação porque ela não nos deixava vê-lo. Não tínhamos notícia nenhuma. Não sabíamos como ele estava, se estava sendo bem tratado ou não. Toda vez que telefonávamos pra falar com ele, os filhos dela diziam que ele tinha ido comprar sapatos.
Esse processo ficou rolando (sempre favorável a ela), durante aproximadamente, NOVE anos. Até que agora a juíza nos deu a guarda provisória por um mês. Mas sabemos que vamos ganhar a guarda definitiva, porque com certeza absoluta ele está sendo mais bem tratado aqui do que jamais foi na casa da bandida (Que foi simplesmente humilhada na última audiência.Eu não fui,mas minha mãe e meu tio disseram que foi coisa de novela.Saíram com a alma lavada). Ele chegou aqui em casa ontem. Magro, com o pé inchado, tenso, todo curvado e com os olhos fechados. De ontem pra hoje já melhorou bastante. Já riu das brincadeiras que fizemos, abriu os olhos algumas vezes, comeu bem,está bem vestido,está num quarto quentinho,com cobertas só pra ele,e o mais importante,está perto de gente que realmente o ama.Quando eu penso no que ele pode ter passado longe da gente me dá vontade de matar aquela mulher.Mas não cabe a mim fazer isso.Um dia ela será punida.O importante agora é que meu avô vai morar comigo e receber todo o carinho da família dele.Porque,ainda que ele não se lembre de nós,nós lembramos dele.E estamos certos de que ele saberá ver a diferença de tratamento.E vai reagir aos nossos estímulos e melhorar.
É isso. Te amo vô =]






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